Não é só uma opinião: respeitar para (re)conhecer como diferencial profissional
Por Caroline Vargas Barbosa

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Todos nós escutamos em algum momento: “o mundo anda chato, não se pode ter opinião…”. Não é? Nesse momento, provavelmente, você juntou um par de informações em sua mente, de situações que remetem ao “mundo chato”. Pois bem.

Da mesma forma, todos nós em algum momento, nos colocamos dispostos a escutar o outro, seja um colega, um familiar, uma amiga ou um estranho. Buscamos aprender algo sobre o outro, buscamos conexões com as nossas experiências e provocamos relatos, conselhos, aproximações e acolhimentos. Não é? Com certeza, você já teve uma opinião que você ponderou em algum momento, depois que você se colocou de ouvidos ao outro. Ou algum relato ou conversa, que ficou ecoando em sua cabeça porque o outro sentia ou percebia algo totalmente diferente de você? Mas…

Mesmo colecionando um punhado dessas situações, às vezes, todos nós cometemos, de pequenos deslizes ou gafes, passando por desconfortos e podendo até ofender ou cometer discriminação – que pode ser crime, em alguns casos; e, em outros previsto com penalidades como multas ou sanções. 

Chato, né? Deselegante. E, às vezes, violento. 

Não se pode mais admitir erros nos ambientes corporativos e laborais, em que já foram superadas discussões acerca de grupos sociais que exprimem uma identidade, como, por exemplo: pessoas com deficiência ou as pessoas pretas. 

Mas é “só minha opinião” 

Algumas situações, sujeitos e grupos sociais já foram validados em nossa democracia, pelas vias corretas, com participação e representação da sociedade. Passaram em diversos aspectos pela discussão dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), conforme previsto em nossa Constituição Federal de 1988, sempre com ouvidos à sociedade e as dinâmicas sociais. Por isso o direito é dinâmico e altera constantemente: há mudanças às quais precisamos respeitar. São debates que já foram reconhecidos socialmente e juridicamente, acerca de grupos sociais que sofreram (e sofrem!) opressões, marginalizações e silenciamentos; que os distancia de direitos fundamentais mínimos, como: educação, trabalho, liberdade, igualdade e dignidade. 

As condições de existência e igualdade, vinculados a gênero, sexualidade, raça e capacidades já tem resultados jurídicos.  Está posto a todos. Para que respeitem.  Por isso, quando se refere a condições de existência de grupos sociais que são discriminados, não é mais opinião, é considerado preconceito.

Preconceito é discriminação 

Estamos falando de micropreconceitos ou discriminações severas que atingem o âmago do ser, que refletem em despedaçar a dignidade da outra pessoa. 

Perceba que usei, propositalmente, o termo refletir. Isso porque, há toda uma construção histórica, social, geopolítica que criou esses preconceitos. E validou tanto quanto referendou sua propagação. 

Então, essas pessoas, estão inseridas em uma realidade, com raízes muito profundas às quais as formam também. É preciso reconhecer e dar alteridade. Isso é respeitar. 

Por isso, independe a intenção das palavras ou atos. O ato ofensivo, pode em sua cabeça (e talvez até no coração) não ser proposital ou conter “boas intenções”. Mas vai refletir em toda a complexidade da dor da pessoa que foi ofendida. 

Outro ponto: não usei os termos concordar ou aceitar. De forma proposital. Concordar ou aceitar, depende de um consentimento, de quando estamos envolvidos em uma situação. Se ultrapassa o nosso ser, se não muda nossas relações – chegamos ao ponto do respeitar e compreender a responsabilidade do reflexo dos atos próprios, ou seja, a sua opinião não pode ultrapassar essa linha limite. 

E é esse reflexo que importa

Refletir tem vários aspectos. O reflexo de você, ser humano, produzir uma dor em outro ser humano. Para mim, uma das mais severas, independente da religião ou espiritualidade; independente da construção cultural e de valores. A autorresponsabilidade nas relações é um dever básico de um ser humano. A ninguém cabe o direito de ferir a existência do outro por uma condição humana. 

Num segundo aspecto, a complexidade da dor do outro, não poderá ser mensurada de maneira exata. Mas ela é abarcada em toda a sua complexidade pelo Direito. Além de tipificação (determinação da lei) de crime, em alguns casos, poderá ainda caber indenizações materiais e morais.

Em um terceiro aspecto, o empresarial e corporativo. A empresa com diversidade tem maior destaque no mercado, por duas razoes.  

O desempenho de seus funcionários em um ambiente inclusivo, acolhedor e de permanente igualdade e respeito à diversidade faz com que cientificamente e por dados econômicos e financeiros, haja maior produtividade de seus funcionários e, portanto, melhores resultados. Em segundo, porque REFLETE a diversidade da empresa como reconhecimento e representatividade. Outros sujeitos, pessoas às quais se identificam com características da empresa, passam a consumir seus produtos como meio de apoio e identificação. 

Agora, imagine uma empresa ou corporação, atuando de forma diversa a apresentada? 

Diariamente somos informados de empresas e grandes corporações, denunciadas ou com cancelamentos virtuais, em razão de práticas sexistas, machistas, homofóbicas, transfóbicas, racistas, de insustentabilidade ambiental ou com discriminação às pessoas com deficiências, visíveis ou invisíveis. 

É preciso respeitar. O reflexo positivo que se espera, é o reconhecimento à diferença por meio do respeito e práticas inclusivas e igualitárias.  Quando sua opinião fere a existência de alguém, dentro de um grupo social; oprimido e marginalizado histórica e socialmente, você pode gerar dor; e, isso é preconceito e não opinião. Um dica de ouro é: Não leve suas opiniões para o ambiente laboral, e se possível, use com cautela nos ambientes sociais em que envolva pessoas não-íntimas. 

Além do dano gerado ao outro e todas as complicações decorrentes disso, também é prejudicial no mercado de trabalho, no meio corporativo e para a imagem da empresa. 

É sobre isso que conversaremos quinzenalmente. Em como ser uma pessoa e profissional, qualificado às demandas sociopolíticas atuais que são fundo do ambiente corporativo e cada vez mais, objetos de boas práticas empresariais. Uma pessoa que inclua e não discrimina. Além de transformar o conhecimento em ferramentas de trabalho e desenvolvimento. 

Vamos?

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Caroline Vargas Barbosa é advogada, docente universitária e pesquisadora. Doutorando em Direito pela UnB, Mestra em Direito Agrário pela UFG e especialista em Processo Civil pela UFSC. Atua em pesquisas e assessoramentos de diversidade, inclusão e ESG.

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4 Comments

    • Obrigada Fabio! Fico muito feliz que você gostou! Logo terão mais! Espero que goste de nos acompanhar!

  1. O mundo está ficando cada vez mais chato e as pessoas cada vez menos ofendidas pelas brincadeiras. Melhor assim! Parabéns pelo artigo!

    • Obrigada Rute! É bem por aí! A brincadeira perde a graça quando fere direitos. Obrigada por acompanhar! Em breve terão mais textos!


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