Gestão de Facilities e Sustentabilidade
Por Gabriela Brandão Motta

publicado em

As ameaças ecológicas para a sobrevivência do planeta estão bem documentadas. O Met Office (o serviço nacional de meteorologia do Reino Unido) advertiu recentemente que as temperaturas médias globais podem aumentar 1,5°C nos próximos quatro anos, atingindo efetivamente o limite estabelecido pelo acordo de Paris sobre mudanças climáticas em 2015. Cientistas afirmam que qualquer aumento adicional nas temperaturas médias pode ter consequências amplas e catastróficas, incluindo ondas de calor mais longas, secas severas, enchentes mortais, aumento da volatilidade do clima e incêndios, e migração em massa incontrolável.

Os negócios e a indústria são um dos maiores fatores que contribuem para essa mudança climática ao criar emissões nocivas de CO2 e altos níveis de poluição e danificando grande parte do ecossistema vital do planeta.

No Brasil, a capital paulista lidera as emissões por energia, com mais 12,4 milhões de toneladas de CO2. O setor de energia inclui transporte, eletricidade e geração de calor, edifícios, fabricação e construção, emissões fugitivas e outras queimas de combustível.

Como uma peça-chave de um ambiente construído e dos serviços que ajudam a manter e administrar a sua infraestrutura, o gerenciamento de facilities tem um papel fundamental a desempenhar para enfrentar estes importantes desafios ambientais. O time de facilites é responsável pelos sistemas e processos em áreas determinantes, como o desempenho energético e de serviços públicos, assim como práticas de gerenciamento e reciclagem de resíduos.

Tudo isso pode ser descrito como “sustentabilidade”. Há uma tendência para presumir, entretanto, que a sustentabilidade é simplesmente “ser verde”. Em realidade, o conceito se estende muito além das boas práticas ambientais.

Quando o termo foi introduzido pela primeira vez pelo Relatório Brundtland da ONU, em 1987, questões sociais fundamentais como a redução da pobreza, a igualdade de gênero e a riqueza redistribuição foram incluídas no objetivo global do meio conservação. Os autores do relatório declararam que a inversão da mudança climática era impossível sem antes abordar as condições sociais que tinha levado ao problema. Para o Instituto Britânico de Gerenciamento de Facilities, por exemplo, a própria visão de sustentabilidade foi estabelecida em 2003 como um termo de referência, utilizado para atividades centradas no meio ambiente, responsabilidade social e gestão econômica.

A gestão de facilities tem fortes laços com a questão da sustentabilidade de duas formas fundamentais. Em um nível básico, a área é responsável pelo funcionamento e gestão dos sistemas de um edifício. Isto inclui AVAC-R, fornecimento de energia, segurança e proteção contra incêndio, TI e comunicações, iluminação, refrigeração, segurança, água, drenagem e encanamento, e muito mais.

Entretanto, à medida que a profissão de gestão de facilities evoluiu, seu comprometimento cresceu. Os gestores desta área são cada vez mais responsáveis não apenas pela infraestrutura, comodidades e serviços do edifício, mas agora também pelo local de trabalho, ou seja, pelo design do local de trabalho e a interação dos funcionários e seu relacionamento com o espaço. É um avanço que tem grandes e importantes implicações para estes profissionais. Significa que eles têm um papel crucial a desempenhar na felicidade, bem-estar e produtividade das pessoas.

Então, o que isso tem a ver com a sustentabilidade? Ao ganhar responsabilidade pelo projeto e gestão do local de trabalho, os gerentes de facilities podem desempenhar um papel de liderança no incentivo e execução de mudanças de comportamento dentro de uma organização. Uma parte crítica de estratégia de sustentabilidade é garantir que os colaboradores compreendam a energia da organização e objetivos ambientais. Por exemplo, investir em tecnologias e sistemas para reduzir a uso de energia em sistemas de aquecimento e/ou refrigeração é inútil se funcionários abrem janelas quando querem.

Hoje, é impossível separar gestão de facilities do gerenciamento de energia. Organizações que querem ser sustentáveis devem explorar as sinergias claras entre as duas modalidades.

SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL

Podemos considerar a sustentabilidade como 1 das 10 áreas funcionais dentro de uma estrutura de padrões para gerenciamento de facilities. Listo três competências-chave que os gestores devem desenvolver nesta área:

  1. Reconhecer e abordar a importância da sustentabilidade e das questões ambientais e como a gestão de facilities tem impacto sobre estas questões;
  2. Desenvolver e implementar políticas que protejam o meio ambiente, apoiem a responsabilidade social corporativa e melhorem a conscientização;
  3. Analisar e melhorar a eficiência energética.

Também divido a sustentabilidade em duas subcategorias: gestão da energia e gestão ambiental. À medida que os gerentes de facilities seguem padrões profissionais institucionais, mais estratégicas se tornam suas tarefas e objetivos com relação à sustentabilidade. No caso do gerenciamento de energia, por exemplo, um requisito em nível de suporte é coletar dados sobre o uso de energia e água. Enquanto isso, um requisito em nível gerencial é auditar o uso de energia e água e promover seu uso eficiente, e um requisito em nível estratégico é influenciar na estratégia de gestão de energia e água e avaliar seu impacto.

DESENVOLVENDO UMA ESTRATÉGIA SUSTENTÁVEL

Existem várias ações que gerentes de facilites podem sugerir e promover melhorias tangíveis à energia e ao meio ambiente de atuação. Sugiro uma série de etapas práticas que podem fazer uma diferença operacional genuína:

  1. Limpeza sustentável e uso reduzido de água com banheiros automatizados;
  2. Catering sustentável, com o uso de alimentos cultivados localmente;
  3. Locomoção sustentável, como iniciativas de compartilhamento de carros;
  4. Políticas de gerenciamento de espaço, como Hot Desking*;
  5. Estratégia de monitoramento e avaliação de economia de energia com a implementação períodos de desligamento.

No entanto, muitas dessas ações custam muito dinheiro que as empresas não desejam gastar. O departamento de gestão de facilities deve, portanto, ter como objetivo construir um case de negócios em torno de qualquer investimento em tecnologia de sustentabilidade ou programas, a fim de que as empresas se disponham a investir em áreas que comprovadamente impactam positivamente nos resultados financeiros.

A adoção de modelos de negócios sustentáveis requer que as organizações se afastem da tomada de decisões de investimento baseadas exclusivamente em métricas estreitas de valor, ou seja, o resultado financeiro ou econômico. Em vez disso, as empresas sustentáveis se concentram em criar valor a longo prazo para suas principais partes interessadas, por exemplo, consumidores, funcionários e investidores, incluindo uma consideração dos impactos ambientais e sociais em combinação com as medidas econômicas tradicionais.

MUDANDO COMPORTAMENTOS

O buy-in** não ocorre apenas no topo; os gerentes de facilities também devem conseguir o buy-in para iniciativas sustentáveis com os colaboradores da organização. Os gestores desta área estão na vanguarda do comportamento de mudança e em posição de influenciar o desempenho das pessoas que trabalham em empresas, departamentos governamentais ou serviços públicos, dentro das instalações que eles administram.

Embora uma série de tecnologias e soluções de design possam ser exploradas para entregar edifícios de baixo ou zero impacto, o papel do comportamento dos ocupantes no desempenho de um edifício é frequentemente considerado de forma implícita ou simplista. Por exemplo, uma estratégia de gestão de resíduos em torno da reciclagem e do desvio do lixo sanitário é inútil se os funcionários ignoram as novas políticas de gestão de resíduos. Essencialmente, como pioneiros da sustentabilidade no local de trabalho, os gerentes de facilities podem garantir que as equipes entendam e adotem às novas políticas sustentáveis.

O QUE DIZ A LEGISLAÇÃO QUE TRATA DE SUSTENTABILIDADE?

A legislação brasileira sobre sustentabilidade é considerada uma das mais completas do mundo, mas isso não quer dizer que seja cumprida como deveria. A Lei nº 9.985, que regula o artigo 225 da Constituição Federal, instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, definindo o uso sustentável dos recursos naturais. Porém, há diversas empresas que ainda não promovem o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais nem os protegem ou ajudam a recuperá-los.

São muitas as leis que procuram controlar o uso e a exploração dos recursos naturais, mas a gestão de facilities deve ficar atenta a algumas em especial, como a Lei de Crimes Ambientais (Decreto nº 3.179/99), que pune administrativa e penalmente as pessoas físicas e empresas que degradam o meio ambiente (poluição de água, morte de animais silvestres e outros atos).

Atualmente, existem diversos certificados que atestam a qualidade do trabalho em uma empresa. Com relação particular ao meio ambiente, vale citar a ISO 14001, que trata de gestão ambiental. Já a NBR 16001 abrange temas como cidadania, desenvolvimento sustentável e transparência (requisitos fundamentais para o Sistema de Gestão de Responsabilidade Social, ou SGRS).

FACILITIES E SUSTENTABILIDADE: UM CASE DE SUCESSO

A PricewaterhouseCoopers (PwC) é uma empresa global de escritórios que trabalham de forma integrada na prestação de serviços de Assessoria Tributária, Empresarial e de Auditoria. Os escritórios que compõem a empresa estão presentes em 157 países e congregam mais de 208.000 colaboradores e sócios em todo o mundo.

Mesmo atuando em um segmento sem impacto ambiental expressivo, a preocupação com o meio ambiente sempre teve importância para a companhia. Por isso, a PwC Brasil, sob a coordenação da área de Facilities, trabalhou na implantação de práticas na companhia que reduzissem os impactos de suas atividades sobre o meio ambiente.

  • Com ações voltadas à eficiência do uso de água, a área conseguiu reduzir o consumo em 58%;
  • Em prol da redução da emissão de CO2, a área aumentou o número de salas de videoconferência e reduziu a necessidade de transporte aéreo ou viário;
  • Outra ação interessante é a parceria com a Carbono Zero Courier, que permite que entregas postais em distâncias menores sejam realizadas com o uso de bicicletas, e as demais, com scooters elétricos;
  • Ainda em prol da redução da emissão de CO2, a empresa incentiva o trabalho remoto (home office) para reduzir a necessidade de deslocamento dos profissionais da empresa.

Todas essas ações exigem, além da busca de alternativas, uma gestão muito eficiente dos recursos envolvidos nessas operações. Outros exemplos práticos disso são a manutenção dos ambientes com a iluminação adequada (de acordo com o período do dia), o controle do sistema de climatização, banheiros e toda hidráulica envolvida, administração de salas de reunião e infraestrutura para atividades à distância.

QUAIS AS VANTAGENS DE SE PREOCUPAR COM A SUSTENTABILIDADE?

Muitos podem ter a impressão de que a sustentabilidade é importante apenas para o meio ambiente. Mas aplicá-la na gestão de facilities gera muitos benefícios também para a instituição.

Cumprimento do compliance: A responsabilidade legal das empresas em eliminar resíduos e cumprir a legislação impacta toda a sociedade e o meio ambiente. Essa atividade também evita a aplicação de multas e sanções.

Redução de custos: Os gastos desnecessários são eliminados. Isso diminui os impactos negativos, além de reduzir os desembolsos extras. O reaproveitamento de materiais e recursos também é positivo, porque a sustentabilidade facilita a obtenção de créditos e a isenção de alguns tributos.

Melhoria da reputação organizacional: A empresa consegue atrair clientes, aumentar a fidelidade e as chances de novos contratos ao optar pelas práticas sustentáveis. Isso acontece porque essas ações estão cada vez mais valorizadas no mercado.

* Hot Desking é o uso de estações de trabalho não designadas a pessoas específicas. Esses espaços de trabalho podem ser usados por qualquer funcionário, independentemente do departamento ou do nível hierárquico, em qualquer dia.

** Buy-In é uma mentalidade, uma crença, e, principalmente, o primeiro passo para que grandes coisas aconteçam coletivamente. E o termo se refere a “comprar a ideia”. Primeiro pelo líder, tendo em mente o sucesso da equipe, o coletivo acima do individual, o “Nós” maior que o “Eu”.

Camada 1

Gabriela Brandão Motta é bacharel em Secretariado Executivo pela Universidade Paulista, com especialização em Gestão Empresarial pela FGV e possui licenciatura em Letras / Inglês pela PUC-SP. Já atuou como professora de língua Inglesa para o Ensino Fundamental e Médio e tem mais de 15 anos de experiência como Secretária Executiva e 6 anos na área de Facilities. Atualmente trabalha como Gerente Geral em uma Trading Company e como Assessora para Assuntos Internacionais da ACTC – Associação Nacional das Empresas Transitárias, Agens de Carga Aérea, Comissárias de Despachos e Operadoras Intermodais, além de começar a atuar também em Customer Success e Customer Experience.

Camada 1

Gostou deste artigo? Compartilhe!

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

Seja o primeiro a comentar!


Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2021.07.27-campanha-telegram-mundi-banner
cestoupresentes-banner
previous arrowprevious arrow
next arrownext arrow

os mais lidos na semana

Temas Procurados

Camada 1
2021.07.27-campanha-telegram-mundi-banner
presenca-online-campanha-touche (6)
vinheta-abril-2021-banner (8)
previous arrowprevious arrow
next arrownext arrow